Em 2012 o Reveillon de Copacabana foi eleito o melhor do mundo pela World Travel Guide. O país-sede das próximas Olimpíadas e Copa orgulha-se da grande noite. A prefeitura do Rio se delicia com a notícia e com a bênção do principal jornal da cidade – apesar de ser o único – se vê estampada em créditos elogiosos ao lado de imagens do belo show pirotécnico.
A contagem regressiva no coro de 2 milhões de pessoas foi emocionante. Um som único capaz de representar a aceitação da vida, pontuada por ciclos periódicos que renovam as forças para a nova fase. Os fogos foram lindos, como sempre, e a chuva contínua interferiu muito pouco. Gritos e aplausos da multidão!!
No mundo encantado das novelas das oito a descrição pode se encerrar aqui. Chegar a Copa foi sofrível, mesmo para quem comprou bilhete de metrô com um mês de antecedência. Na estação terminal da linha 1, Praça Saenz Peña, uma fila que ultrapassava um quilômetro dava voltas por toda a praça para que as pessoas entrassem no metrô. Ao longo das estações, os carros iam enchendo, enchendo, enchendo... Na altura do Largo do Machado, já havia indícios de que algumas das leis da física estavam sendo contrariadas.
Sair da primeira estação em Copacabana foi possível e o trânsito na Barata Ribeiro parecia tranqüilo para aqueles que optaram vir de ônibus, que estavam apenas cheios. A primeira surpresa de fato terrível foi chegar na Avenida Atlântica. O mar de gente que nunca pude verificar tornava impossível o caminhar. Éramos seis pessoas e nos encontraríamos com mais seis.
Havia mais pessoas do que o espaço poderia comportar. Ao chegar na Rua República do Peru uma surpresa: a areia estava tomada por um “espaço vip” que era ligado por uma passarela aérea do Copacabana Palace ao palco e a esta área. Optamos então a nos aproximar do palco para que ao menos escutássemos o show. Não havia caminhar , somente empurrar.
Sempre gosto de ficar na areia para ver os fogos de perto e ficar descalça, mas me dei por satisfeita por termos conseguido um lugar na calçada dos edifícios, do outro lado da praia. Na nossa frente, uma poça de água, lixo e cacos de vidro, que faziam dali um local de aparente vazio, onde presenciamos três pessoas caindo ao tropeçar na calçada invisibilizada pela poça. Esbarrões e pisões pareciam nada diante das cenas de pessoas sendo carregadas pelos excessos cometidos que estragavam ainda mais a noite de quem foi curtir a virada. Desisti de encontrar com os outros seis.
Enquanto tentávamos curtir o som, a passarela do Copacabana Palace era eventualmente pincelada por um guarda-chuva transparente carregado por um/a mucama contemporâneo para que o ‘vip’ não se molhasse.
“ – Feliz Ano Novo!!” Decidimos estourar nosso espumante antes de meia noite e percebemos que teríamos que segurar a garrafa: não havia lixeiras por perto. Ops... Nem lixeiras nem banheiros químicos... A garrafa e a bolsa de papelão ficaram no chão. O resto foi possível segurar. Por sorte a prefeitura, muito preocupada com a higiene, se encarregou de perseguir os ambulantes que, para ganhar um extra numa das 10 cidades mais caras do mundo, vendem bebidas nessas datas.
“- Que sujeirada!!” Recolheram 370 toneladas de resíduos de Copacabana no dia primeiro: “ - Essa gente pobre e suja!!” Ou ainda: “ – Esses turistas chinfrim que chegam do nordeste parcelando sua passagem em 10 vezes!”.
Dançamos e curtimos. Fizemos a contagem regressiva e vimos os fogos. Foi lindo!
Depois dos fogos, fomos até a areia para esperar aquela hora crítica em muita gente vai embora. Era o pior que se aproximava... Ir até a areia era entrar em uma espécie de moedor de carne humano. Nesse trajeto, o saldo foi: nos perdemos de dois de nossos amigos, um pé foi massacrado, um seio foi apertado, um pênis foi ‘patolado’, uma identidade com 30 reais foi levada e dois bolsos foram penetrados.
A areia, palco de tantas viradas da minha vida, onde gosto de sentir o chão com os pés, estava inacessível. Voltamos. Mais uma hora para cruzar até o lado dos edifícios da Atlântica. Já na calçada, encontramos um espaço perto de um guarda-sol de uma família de turistas de Pernambuco que estava boquiaberta. Tentei telefonar para os amigos perdidos e para os que não encontrei, estavam todos os telefones sem funcionar.
Entre a Rodolfo Dantas e a Duvivier uma grande massa se deslocava da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, como se fossem ondas. Em certo momento, indagamos a alguém o que estava acontecendo: “- A rua está fechada!!”. Demorei a acreditar, mas era isso mesmo. A rua lateral que compõe a quadra que o Copacabana Palace ocupa estava simplesmente fechada. Ironicamente é a mesma rua que dá acesso ao metrô.
O espetáculo dos ricos não podia ser poluído pela passagem dos pobres. Isso me soa tão bizarramente cotidiano... Até o turista um tiquinho atento percebe isso ao sair do aeroporto Tom Jobim, chegar na Linha Vermelha e se deparar com aquele “esconde pobre” que o governador Cabral chamou de “barreira acústica demandada pela população”.
Esperamos encolhidos perto da família de turistas pernambucanos. Em uma das idas e voltas da “onda humana” foi aberto um clarão e seguimos em direção à Rua Duvivier, que também estava com a lateral bloqueada por ferros e por um caminhão imenso de refrigerantes, estrategicamente posicionado pela polícia. No caminho vimos mais pessoas sendo carregadas, lixo, cacos de vidro, poças imundas, um cara em overdose.
“ – Usem o transporte público!!”. Chegamos à Avenida Nossa Senhora de Copacabana e foi possível andar. Os ônibus que passavam já vinham sem espaço para uma mosca. Resolvemos esperar um pouco, fazer hora para voltar para casa. As lanchonetes abertas estavam lotadas e com lanches duas vezes mais caros que o comum. Por exemplo, um hambúrguer do Bobs duplo com um refrigerante era 18 reais.
Na lanchonete, lá na Figueiredo Magalhães, conseguimos nos sentar e comer um bigbob sem salada, frio e sem nada. Descansamos um pouco e tomamos o rumo da roça. Nossos amigos não tinham o bilhete de metrô e foram para o ponto de ônibus. Nós entramos na estação Siqueira Campos e às cinco horas estávamos na Saez Peña de volta. Até minha casa, o taxista, que não quis ligar o taxímetro, cobrou 10 reais. Já estava entregue, ok, o normal é ser 7.
Em casa, recebo o telefonema derradeiro: nossos amigos tinham andado até Ipanema, mas não conseguiram pegar o ônibus. Este, quando passava, já vinha superlotado. Sugeri que caminhassem de volta até o metrô e aguardassem as bilheterias abrirem. Já estava de manhã.
Depois desta saga, ilustrativa de tantas questões clássicas do Rio de Janeiro e do Brasil, eu, mais uma vez, me envergonho de ser carioca. Vergonha de viver em um dos países mais desiguais do mundo. Vergonha de não saber o que fazer diante disso. Também me revolto com o silêncio diante disso tudo. O meu silêncio, que no máximo reclama nesse espaço virtual. O silêncio da TV que exalta o “melhor reveillon do mundo”. O silêncio da massa, que diante das grades apenas retorna na onda. Eu queria quebrar tudo!!!!!!!!!! Mas... Sozinha ?? Eu era a louca! E então entro nesse silêncio horroroso que me faz rir dessa situação!
Essa é a cidade que vai receber Olimpíada. Esse é o país que vai receber a Copa.
E a segunda-feira, na surdina de mais um janeiro chuvoso, amanheceu com um aumento de 10% no transporte público. Bem-vindos à “Cidade Maravilhosa” e um feliz 2012 para todos!!