Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

Um conto brasileiro


Adoro os filmes com o Ricardo Darín. Uma amiga, a Renata Braga, disse que  “Um Conto Chinês” era um dos melhores filmes de 2011 e tão logo tive a oportunidade, fui assisti-lo. Faço coro aos elogios da Renata.  Trata-se de uma história de um homem de meia-idade que é tão ranzinza que chega a ser amável. O sujeito coleciona notícias absurdas para provar que a vida não tem sentido e é tão absurda quanto aquelas notícias lidas, recortadas, coladas em um caderno e relidas. Um dia, esse homem, que é interpretado pelo Darin, encontra um rapaz chinês perdido em Buenos Aires. O rapaz não fala uma palavra sequer em castelhano e o Ranzinza cede um espaço de sua casa e de sua vida para o rapaz perdido. Vale a pena ver o filme, por isso não vou contar mais detalhe algum.

O que me fez pensar sobre esse filme hoje foi essa data, 16 de fevereiro. Há exatos 4 anos, minha mãe morreu, aos 52 anos. Existem mortes anunciadas e a da minha mãe foi uma delas.  Mas nem por isso foi algo que me pareceu ter sentido. Se eu sempre tive consciência dessa morte eminente, por que sofri(o) tanto?  

Nem sempre a razão, o conhecimento,  a consciência  nos ajuda a viver. Nada disso colabora para a construção de sentido da vida que (alguns) seres humanos tanto buscam.

Minha mãe morreu, eu já tinha minha própria família.  Mas era a ela a quem recorria sempre. Para contar uma novidade, para ralhar sobre o mundo, para criticá-la, para dividir uma alegria, enfim, para amá-la, em todas as implicações boas e más que isso gera a alguém.

Se eu fosse religiosa, hoje mandaria rezar uma missa. Não posso, por isso escrevo. Parafraseando o João Nogueira, “Na inocência de criança de tão pouca idade, troquei de mal com Deus por me levar minha mãe”. Depois dela, meu pai se encarregou de seu próprio enterro simbólico e hoje sou mais uma de tantas Marias, que sem ter quem me tire o medo, ando deixando muitos sonhos para trás.

Mas como a vida não tem tanto sentido a ser compreensível, sobrevivi. Mais triste, mais arisca. Muitas vezes enfraquecida, outras vezes mais forte. Tenho meu filho, um garoto e tanto. Tenho meu ‘namorido’, um companheiro de primeira. Tenho minha irmã mais nova, sempre com a aparência tão frágil, mas que me dá um banho em formas de lidar com os obstáculos do caminho. Herdei de minha mãe um estado depressivo que vem e vai, mas também a força de caráter, as posições sinceras (e tantas vezes sem-noção),  a vontade de Vida... E por isso continuo, sempre renovando valores, repensando no que realmente pode valer a pena.

O personagem do Darín revela as raízes de tanta amargura e nisso encontra um espaço para amaciar o coração. Mesmo sem sentido, mesmo dura, mesmo absurda .... Estou fazendo o mesmo... A vida está sendo e é preciso seguir. Mesmo com as tais das “saudades eternas”.

2 comentários:

Marcelli Oliveira disse...

Lindo texto.
Como as datas significantes nos fazem refletir sobre toda uma história!
Obrigada por compartilhar conosco, pois também me fez refletir sobre a relação com a minha mãe.

Marcio Araujo disse...

Oi Camila!

Lindo mesmo seu texto. Dificil essa coisa da morte. Ela nos faz lembrar que grande parte de nós está presa a coisas "externas": pessoas, lugares, coisas, idéias, cheiros, sons etc. Acho que é por isso que é tão dificil lidar com essas perdas: porque parte de nós realmente se apaga no processo.


Isso tudo me lembrou "Strawberry Fields Forever".