Adoro os filmes com o Ricardo Darín. Uma amiga, a Renata
Braga, disse que “Um Conto Chinês” era
um dos melhores filmes de 2011 e tão logo tive a oportunidade, fui assisti-lo.
Faço coro aos elogios da Renata. Trata-se
de uma história de um homem de meia-idade que é tão ranzinza que chega a ser amável.
O sujeito coleciona notícias absurdas para provar que a vida não tem sentido e
é tão absurda quanto aquelas notícias lidas, recortadas, coladas em um caderno
e relidas. Um dia, esse homem, que é interpretado pelo Darin, encontra um rapaz
chinês perdido em Buenos Aires. O rapaz não fala uma palavra sequer em
castelhano e o Ranzinza cede um espaço de sua casa e de sua vida para o rapaz
perdido. Vale a pena ver o filme, por isso não vou contar mais detalhe algum.
O que me fez pensar sobre esse filme hoje foi essa data, 16
de fevereiro. Há exatos 4 anos, minha mãe morreu, aos 52 anos. Existem mortes
anunciadas e a da minha mãe foi uma delas. Mas nem por isso foi algo que me pareceu ter
sentido. Se eu sempre tive consciência dessa morte eminente, por que sofri(o)
tanto?
Nem sempre a razão, o conhecimento, a consciência nos ajuda a viver. Nada disso colabora para a
construção de sentido da vida que (alguns) seres humanos tanto buscam.
Minha mãe morreu, eu já tinha minha própria família. Mas era a ela a quem recorria sempre. Para
contar uma novidade, para ralhar sobre o mundo, para criticá-la, para dividir
uma alegria, enfim, para amá-la, em todas as implicações boas e más que isso
gera a alguém.
Se eu fosse religiosa, hoje mandaria rezar uma missa. Não
posso, por isso escrevo. Parafraseando o João Nogueira, “Na
inocência de criança de tão pouca idade, troquei de mal com Deus por me levar
minha mãe”. Depois
dela, meu pai se encarregou de seu próprio enterro simbólico e hoje sou mais
uma de tantas Marias, que sem ter quem me tire o medo, ando deixando muitos
sonhos para trás.
Mas
como a vida não tem tanto sentido a ser compreensível, sobrevivi.
Mais triste, mais arisca. Muitas vezes enfraquecida, outras vezes mais forte. Tenho
meu filho, um garoto e tanto. Tenho meu ‘namorido’, um companheiro de primeira.
Tenho minha irmã mais nova, sempre com a aparência tão frágil, mas que me dá um
banho em formas de lidar com os obstáculos do caminho. Herdei de minha mãe um
estado depressivo que vem e vai, mas também a força de caráter, as posições
sinceras (e tantas vezes sem-noção), a
vontade de Vida... E por isso continuo, sempre renovando valores, repensando no
que realmente pode valer a pena.
O personagem do Darín revela as raízes de tanta amargura e
nisso encontra um espaço para amaciar o coração. Mesmo sem sentido, mesmo dura,
mesmo absurda .... Estou fazendo o mesmo... A vida está sendo e é preciso
seguir. Mesmo com as tais das “saudades eternas”.
2 comentários:
Lindo texto.
Como as datas significantes nos fazem refletir sobre toda uma história!
Obrigada por compartilhar conosco, pois também me fez refletir sobre a relação com a minha mãe.
Oi Camila!
Lindo mesmo seu texto. Dificil essa coisa da morte. Ela nos faz lembrar que grande parte de nós está presa a coisas "externas": pessoas, lugares, coisas, idéias, cheiros, sons etc. Acho que é por isso que é tão dificil lidar com essas perdas: porque parte de nós realmente se apaga no processo.
Isso tudo me lembrou "Strawberry Fields Forever".
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