Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

Brilhos, Cinzas e Quarta-feira


Fim de Carnaval é um bom momento para a reflexão.  Indicativo maior se apresenta do nome do pós-festa: “quarta-feira de cinzas”. Antigamente esse nome me pareceria tão horroroso quanto o “dia dos finados” ou o “dia de todos os santos”. Todos os nomes me remetiam ao conceito de morte e ao medo derivado dele que tanto cultivamos na nossa sociedade quase-ocidental.
Tenho refletido bastante sobre o mito da Fênix, esse pássaro da mitologia grega capaz de suportar fardos incrivelmente pesados. Ao morrer, a Fênix se encarregava de queimar a si própria e depois conseguia renascer das próprias cinzas.
Justaposto isso, as cinzas da quarta-feira ganham um novo significado. Se antes as cinzas remetiam ao fim dos Brilhos e Purpurinas, agora me fazem lembrar o Renascimento.
Como a Fênix, todo ciclo tem seu ápice e sua decadência. E cada final de festa, cada final de pedaço de vida é uma pequena morte.
Esse ano preferi não viver o ápice festivo – estou  em minhas cinzas juntando a energia necessária para a Renovação.  Desse lugar também observo a Purpurina e lembro da efemeridade da Festa e da dificuldade de aceitação das Cinzas. Quando elas se apresentam, geralmente não é por uma opção tal qual a da Fênix, mas por uma imposição externa. Talvez não seja assim ao se instalar a maturidade.
Fim de Carnaval é um bom momento para a reflexão. Recordar com graça do Brilho, mas consciente de que ele voa para o mundo.  Ter memória e seleção suficientemente boas para distinguir o que levamos conosco e o que simplesmente ‘curtimos’ ou derramamos ‘lágrimas de crocodilo’.
Um dia somos Purpurina e nos dissipamos nos corpos de quem se aproxima. No outro somos Cinzas e precisamos encontrar um cantinho para que o vento são nos sopre para a Finitude. A Fênix ressurge e continua forte depois de sua morte.
Que todos tenham um 2012 proveitoso.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

Um conto brasileiro


Adoro os filmes com o Ricardo Darín. Uma amiga, a Renata Braga, disse que  “Um Conto Chinês” era um dos melhores filmes de 2011 e tão logo tive a oportunidade, fui assisti-lo. Faço coro aos elogios da Renata.  Trata-se de uma história de um homem de meia-idade que é tão ranzinza que chega a ser amável. O sujeito coleciona notícias absurdas para provar que a vida não tem sentido e é tão absurda quanto aquelas notícias lidas, recortadas, coladas em um caderno e relidas. Um dia, esse homem, que é interpretado pelo Darin, encontra um rapaz chinês perdido em Buenos Aires. O rapaz não fala uma palavra sequer em castelhano e o Ranzinza cede um espaço de sua casa e de sua vida para o rapaz perdido. Vale a pena ver o filme, por isso não vou contar mais detalhe algum.

O que me fez pensar sobre esse filme hoje foi essa data, 16 de fevereiro. Há exatos 4 anos, minha mãe morreu, aos 52 anos. Existem mortes anunciadas e a da minha mãe foi uma delas.  Mas nem por isso foi algo que me pareceu ter sentido. Se eu sempre tive consciência dessa morte eminente, por que sofri(o) tanto?  

Nem sempre a razão, o conhecimento,  a consciência  nos ajuda a viver. Nada disso colabora para a construção de sentido da vida que (alguns) seres humanos tanto buscam.

Minha mãe morreu, eu já tinha minha própria família.  Mas era a ela a quem recorria sempre. Para contar uma novidade, para ralhar sobre o mundo, para criticá-la, para dividir uma alegria, enfim, para amá-la, em todas as implicações boas e más que isso gera a alguém.

Se eu fosse religiosa, hoje mandaria rezar uma missa. Não posso, por isso escrevo. Parafraseando o João Nogueira, “Na inocência de criança de tão pouca idade, troquei de mal com Deus por me levar minha mãe”. Depois dela, meu pai se encarregou de seu próprio enterro simbólico e hoje sou mais uma de tantas Marias, que sem ter quem me tire o medo, ando deixando muitos sonhos para trás.

Mas como a vida não tem tanto sentido a ser compreensível, sobrevivi. Mais triste, mais arisca. Muitas vezes enfraquecida, outras vezes mais forte. Tenho meu filho, um garoto e tanto. Tenho meu ‘namorido’, um companheiro de primeira. Tenho minha irmã mais nova, sempre com a aparência tão frágil, mas que me dá um banho em formas de lidar com os obstáculos do caminho. Herdei de minha mãe um estado depressivo que vem e vai, mas também a força de caráter, as posições sinceras (e tantas vezes sem-noção),  a vontade de Vida... E por isso continuo, sempre renovando valores, repensando no que realmente pode valer a pena.

O personagem do Darín revela as raízes de tanta amargura e nisso encontra um espaço para amaciar o coração. Mesmo sem sentido, mesmo dura, mesmo absurda .... Estou fazendo o mesmo... A vida está sendo e é preciso seguir. Mesmo com as tais das “saudades eternas”.